quinta-feira, 4 de julho de 2013

1CO 11.29: A INTERPRETAÇÃO DE GORDON D. FEE




Carta escrita pelo Pr Luciano R. Peterlevitz aos pastores, realçando a importância do aprimoramento dos processos de interpretação bíblica.

1Coríntios 11.29: pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. (Ameida Revista e Atualizada).

Estimados colegas pastores,

Creio que todos nós estamos conscientes que uma das tarefas fundamentais do ministro cristão é a pregação da Palavra de Deus. Quão grande responsabilidade foi-nos concedida! Somos arautos da verdade.  A Palavra de Deus (sua voz e Sua vontade) é manifesta mediante a pregação que nos foi confiada pelo mandato de Deus, nosso Salvador (Tt 1.3). Acreditamos que, para a excelência do exercício da pregação, precisamos constantemente buscar ferramentas que auxiliem na preparação de mensagens. Por isso escrevo esta carta. Para realçar que nós (inclusive eu!), como intérpretes da Palavra, precisamos aprimorar os processos de interpretação bíblica.  
No momento, estou envolvido na preparação de uma apostila sobre Hermenêutica Bíblica, para o curso de Teologia da Faculdade Teológica Batista de Campinas. Estou lendo e relendo algumas obras sobre o assunto, e redescobrindo a importância da hermenêutica para a preparação das minhas mensagens e estudos. Isso tem sido grande benção na minha vida. Uma das obras lidas por mim é Hermenêutica: uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica (São Paulo, Shedd Publicações, 2012), tendo Elmer Dyck como editor. Trata-se de uma coletânea de textos, cada qual enfocando aspectos importantes do processo de interpretação do texto bíblico. Um dos textos foi escrito por Gordon D. Fee[1]: “A história como contexto para a Interpretação”, p.11-35. Em um dos momentos do texto, mostrando a importância da análise do conteúdo no processo exegético e hermenêutico, Fee oferece uma interpretação sobre 1Co 11.29.
Achei oportuno compartilhar com os irmãos a interpretação de Fee sobre 1Co 11.29. Meu objetivo nesta carta não é reafirmar ou analisar criticamente a interpretação do autor. A presente carta constitui-se simplesmente anotações sobre a interpretação de Fee sobre 1Co 11.29, cabendo aos colegas analisarem se tal interpretação possui fundamentação adequada.
Antes da interpretação do texto bíblico supracitado, Gordon D. Fee aborda diversas outras premissas do processo de interpretação de um texto bíblico, que reclamam insistentemente o direito de serem relembradas por nós, intérpretes da Palavra.
Gordon D. Fee primeiramente justifica a necessidade da hermenêutica. A hermenêutica é necessária, já que é impossível ler as Escrituras sem a interpretação. Outra razão da hermenêutica apresentada por Fee diz respeito à natureza das Escrituras. Ora, um pressuposto fundamental para a instrumentalização da hermenêutica é a afirmativa de que as Escrituras possuem dupla autoria, a divina e a humana. Ou seja, em última instância o Autor da Bíblia é Deus, já que o Espírito Santo impeliu os santos profetas e apóstolos para falarem em nome de Deus; por outro lado, a revelação divina foi necessariamente expressa em linguagem humana e foi mediada pela história humana em contextos bastante particulares. “Isto é: assim como cremos que nosso Salvador é, ao mesmo tempo, tanto humano quanto divino, assim também acreditamos que Escritura é ao mesmo tempo, humana e divina.” (p.14). Portanto, a Bíblia é a Palavra de Deus revelada através de homens, no decorrer da história.
Isso significa que, para a correta interpretação da Bíblia, existem alguns elementos que auxiliam a interpretação da Escritura: 1) conhecimento das línguas bíblicas (hebraico, aramaico e grego); 2) conhecimento da cultura dos autores e dos leitores originais da Bíblia; e 3) conhecimento do contexto histórico e geográfico da Bíblia.
É por essa razão que as perguntas sobre o contexto do texto são fundamentais, no processo de interpretação. Ao tratar sobre o contexto, o intérprete responderá às seguintes questões: 1) quanto ao gênero: qual é o tipo de literatura? Narrativa, poesia, profecia, parábola, epístola?; 2) quanto ao contexto histórico: qual o pano de fundo histórico cultural?; 3) quanto ao contexto literário: qual o significado do versículo ou palavra no contexto dos versículos que vem antes e depois, e no contexto do livro onde está inserido o versículo ou palavra? Após as perguntas sobre o contexto, Fee salienta que o intérprete precisa perguntar pelo conteúdo: significado lexicográfico (o que essas palavras significam nesse contexto específico?); significado gramatical (como essas palavras se relacionam umas com as outras?); pano de fundo histórico (quais alusões ou pressuposições históricas existem por detrás dessas palavras?).
A partir destes instrumentais hermenêuticos, Gordon D. Fee se propõe a analisar 1Co 11.29. Após uma interessante interpretação de 1Co 3.16-17[2] , Fee analisa 1Co11.29 a partir das questões contextuais. Duas questões orientam sua análise: 1ª) qual significado da palavra ‘corpo’? Seria o corpo crucificado de Cristo ou a igreja?; 2ª) qual o significado do verbo diakrino, “discernir, reconhecer, ou julgar corretamente”?
Vamos ao texto, por três traduções:
Pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. (Ameida Revista e Atualizada).
Porque o que come e bebe indignamente come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor (Revista e Corrigida).
Pois quem come e bebe sem ter consciência do corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação. (Ameida Século XXI).

Observa-se que a RC e a Almeida Século XXI adicionam “do Senhor” à palavra “corpo”. A ARA, por sua vez, simplesmente traduz “corpo”, sem nenhum qualificador, conforme o texto grego.
Nos v.24 e v.27 o “corpo” notadamente é o corpo crucificado de Jesus. Fee faz duas considerações a respeito do uso da palavra ‘corpo’ no v.29, à luz do contexto imediato (p.29). Primeira: é a primeira vez que a palavra ‘corpo’ é usada sem o qualificador (meu corpo; corpo do Senhor). Segunda: o corpo é mencionado, no v.29, sem relação ao cálice ou ao sangue.
À luz dos v.21 e v.22, pode-se constatar que a Ceia era um tipo de refeição particular usufruída pelos ricos em detrimento dos pobres. Alguns comiam opulentamente, enquanto outros não tinham o que comer. De acordo com o v.21, a ceia de Corinto não era a ‘Ceia do Senhor’ (v.20), mas uma ceia particular (idion deipnon, “própria ceia”, uma refeição muito particular). Assim, as divisões apontadas no v.18 certamente têm bases sociais. Fee indaga: “o que está por detrás de tudo isso? Como devemos entender o modo de os coríntios abusarem a mesa do Senhor?” (p.31). O autor recorre ao contexto histórico-cultural para responder essas questões e esclarecer o real sentido dessa passagem bíblica.
“Sabemos que as igrejas primitivas se reuniam em casas, e que muitas vezes as casas eram de estilo romano com os próprios cômodos formando um tipo de retângulo em derredor de um pátio aberto chamado átrio. Um dos cômodos chamado triclínio (reclinando-se em três lados de uma mesa) era a sala do jantar. Também sabemos, pela arqueologia de Corinto, que não existiam casas – ou pelo menos não foi descoberta nenhuma – em que mais de doze pessoas podiam ter se reclinado confortavelmente no triclínio. Se o triclínio estava sendo usado para essas refeições aludidas por Paulo, somente um grupo seleto podia ter sido admitido, e as demais pessoas teriam ficado lá fora, no átrio.” (p.31-32).
Fee salienta que a expressão “sua própria ceia” (v.21) pode estar relacionada com uma prática comum do mundo greco-romano, conhecida por textos de antigos escritores: o anfitrião selecionava os hóspedes mais importantes, e para eles servia uma refeição privilegiada, enquanto que outros hóspedes eram divididos em subcategorias, e para cada categoria era servida um tipo de refeição. Quanto mais importante era o hóspede, mais requintada era a comida. Fee cita dois escritores antigos (Marcial e Plínio, o velho), que fazem referência a essa prática.
Gordon D. Fee acredita que é algo desse tipo que é condenado por Paulo, em 1Co 11.29. O autor imagina que os ricos celebravam “sua própria ceia”, no triclínio, “ao passo que a maioria composta por certo de escravos ou de libertos pobres (cf. 1.26) eram basicamente excluídos da refeição dos outros e, portanto, eram excluídos da própria mesa do Senhor” (p.33).
Nesse contexto, não “discernir” o corpo significa não reconhecer o corpo de Cristo (a igreja) como um espaço igualitário, onde as diferenciações entre ricos e pobres inexistem. “Deixar de discernir assim o corpo e abusar dos de categoria social inferior é incorrer no juízo divino”, diz Fee (p.34).
O autor não ignora a referência ao sangue e ao corpo crucificado do Senhor. Isso porque o sangue de Jesus produz um efeito vertical e horizontal: aproxima-nos de Deus, verticalmente, e nos aproxima do próximo, horizontalmente.
Na verdade, o que Fee pretende demonstrar, a partir da interpretação de passagens de 1Corintios (aqui ressaltamos sua interpretação de 1Co 11.29), é que “a história é o primeiro contexto para a interpretação” (p.35). Ou seja, a interpretação precisa levar em conta o pano de fundo histórico-cultural do texto, e necessariamente precisa anteceder à aplicação.
Podemos discordar da interpretação de Gordon D. Fee sobre 1Co 11.29. Mas creio que todos nós concordamos no principal argumento do autor: para a correta interpretação e aplicação da Palavra de Deus em nossos dias, é preciso considerar seriamente as particularidades dos textos bíblicos em seus contextos históricos, literários e teológicos.
O texto de Gordon D. Fee e os demais artigos do livro Hermenêutica: uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica enriqueceram sobremaneira meus instrumentais hermenêuticos. Por isso, recomendo-os aos estimados colegas. Abaixo também alisto outras obras de hermenêutica bíblica, que também poderão contribuir para o aprimoramento de suas pregações.
Na paz de Cristo,
Pr Luciano R. Peterlevitz

BIBLIOGRAFIA DE HERMENÊUTICA BÍBLICA
BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica.  Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965.
CARSON, D.A. Os Perigos da Interpretação Bíblica. 2ª edição. São Paulo: Edições Vida Nova, 2001.
DYCK, Elmer (editor). Hermenêutica: uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica. São Paulo: Shedd Publicações, 2012.  
GRUDEM, Wayne; COLLINS, C. John; SCHREINER, Thomas R. Origem, confiabilidade e significado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2013.
HENRICHSEN, Walter A. Princípios de interpretação bíblica. 3ª edição.  São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1986.  
KAISER, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica: Como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.  
LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
LUND, E. & NELSON, P. C. Hermenêutica: Princípios de interpretação das Sagradas Escrituras. 2ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Vida Nova, 2006.
OSBORNE, Grant R. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
ZUCK, Roy B. A interpretação Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994.



[1] Autor conhecido por outra obra publicada em português: Entendes o que lês? (Edições Vida Nova), em parceria com Douglas Stuart.
[2] Segundo Fee, em 1Co 3.16-17 o ‘santuário de Deus’ não é uma referência à destruição do corpo individual do cristão; antes, ‘santuário de Deus’ é a igreja como coletividade, que no contexto da epístola de 1Co estava sendo destruída pela sabedoria humana sobreposta à mensagem da cruz e pelas contentas de alguns membros de Corinto contra seus líderes – Paulo e Apolo).







segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A certeza da salvação - A eternidade da obra consumada de Cristo


Pr Luciano R. Peterlevitz – Missão Batista Vida Nova, 11.12.2011


Ev. João 5.24: Em verdade, em verdade vos digo quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.


Muita gente tem medo de morrer sem ter pedido perdão a Deus por algum pecado que cometeu. Outros tem medo que Deus os leve de repente, sem estar 'preparado'. Pois, para essas pessoas, a salvação depende da perseverança e do esforço pessoal. Nessa perspectiva, até o último momento da vida pode-se perder a salvação. Assim, a vida eterna é um tipo de ioiô: vai e volta.

Entretanto, reafirmaremos uma das doutrinas essências do Protestantismo Reformado, a Segurança da Salvação ou Perseverança dos Salvos. A salvação concedida pela graça mediante a fé na obra consumada de Cristo jamais pode ser perdida. Uma vez salvo, para sempre salvo. Pois aquele que crê em Jesus é selado pelo Espírito da promessa, e é guardado eternamente pelo poder de Deus. Os salvos continuarão salvos porque porque a base da salvação é a obra consumada de Cristo.


Principais questões:

Já que sou salvo pela graça mediante a fé, então posso pecar à vontade? Não! Salvação pela graça mediante a fé não significa que temos licença para vivermos uma vida no pecado. Veja Rm 6. Já falamos que o salário do pecado é a morte. Os crentes geralmente não conseguem entender a Perseverança dos Salvos porque não distinguem entre salvação/justificação pela graça e santificação. Confundem a salvação com o resultado da salvação.

E aqueles que se 'desviaram'? Continuam salvos? “Saíram dos nossos, porque não eram dos nossos” IJo 2.19. Se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco. Ou seja, a perseverança não é a causa da salvação, mas o resultado dela. O grande problema é que tem muita gente não convertida, nas igrejas. Isso me faz lembrar uma estória. Certa vez, um pastor, após receber o aviso do falecimento de um membro de sua igreja, publicou uma nota no boletim: “Fulano partiu para o céu às 03h da madrugada.” No dia seguinte, o pastor recebe uma mensagem do céu: “Fulano ainda não chegou aqui. Aguardamo-lo com grande expectativa. Céu, 08h da noite.

E os crentes que fracassam na vida cristã? Sim, o crente está sujeito à tentação e ao fracasso. Os grandes personagens bíblicos fracassaram. Mas a graça e poder de Deus os capacitaram a se erguer.


Somos salvos pela graça de Deus mediante a fé. Não vem de nós. Isso significa afirmar que a salvação não depende dos nossos méritos pessoais, mas dependente unicamente da obra consumada de Cristo na cruz. Acreditar que nossa obediência é o que garante a salvação eterna é a mesma coisa que afirmar que conquistamos nossa salvação pela obediência.



1. A salvação eterna foi prometida pelo próprio Jesus

Jo 3.15: “para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna”.

Jo 3.36: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna...”

Jo 10:27-29: "Eu lhes dou a vida eterna - jamais perecerão eternamente -ninguém as arrebatará da minha mão - da mão do Pai ninguém pode arrebatar.

Jo 11:25,26: "Quem crê em mim, ainda que morra viverá ; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente."

A Bíblia diz que aquele que crê no Filho Unigênito tem a vida eterna. Não se trata, portanto, de uma vida 'quase' eterna ou temporária.


2. A salvação eterna foi consumada através da morte de Jesus

“Está consumado”, disse Jesus (Jo 19.30). Toda a nossa dívida com Deus foi paga pela morte de Jesus.

Um dos grandes dos problemas da crença na perda da salvação é a incompreensão do que seja pecado. É que, para essa linha de pensamento, existem pecados mais sérios (que fazem com que percamos a salvação) e pecados menos sérios (que não causam necessariamente a perda da salvação).

Mas a Bíblia diz que pecado é pecado. Não existe diferença entre 'pecadinho' e 'pecadão'. É bom que se diferencie: pecado e pecados. O pecado: 'pecado original' (Gn 3), que todos nós incorremos em Adão. Pecados: atitudes que afrontam a santidade de Deus; são resultados de nossa natureza pecaminosa. Entretanto, todo pecado resulta na morte eterna.

Todo pecado é contra Deus (Sl 51.4). Todo pecado fere a santidade de Deus, e só pode ser tratado com a penalidade eterna, a morte.

Mas quando cremos em Jesus, somos perdoados por Deus. Muitos perguntam: 'será que Deus perdoa mesmo'. No entanto, a Escritura diz que Deus é fiel e justo para perdoar os nossos pecados: 1Jo 1.9. Quando cremos em Jesus, somos perdoados. Normalmente temos dificuldade em aceitar que Deus perdoa todos e tudo porque na verdade nós temos problema de perdoar todos e tudo.


3. A salvação eterna é preservada em nós pela ação do Espírito Santo em nós

Quando cremos em Jesus, somos selados pelo Espírito Santo da promessa: Ef 1.13.

Jo 10:27-29 - "Eu lhes dou a vida eterna - jamais perecerão eternamente -ninguém as arrebatará da minha mão - da mão do Pai ninguém pode arrebatar.

Somos guardados pelo poder de Deus: 1Pe 1.3-5. Alguém já disse acertadamente que não é o crente que perde a salvação, é o Salvador que não perde o crente.

Não há mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus: Rm 8.1. O Espírito testifica com nosso espírito que somos filhos de Deus.

Quando cremos em Jesus, tornamo-nos filhos de Deus. Ninguém pode deixar de ser filho.

O Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. Nesse ponto entende-se a extrema relevância da doutrina da Perseverança dos Salvos para a vida cotidiana do crente. Pois a certeza de que somos filhos de Deus move a oração (Rm 8.14-17). Éramos filhos da ira, mas fomos adotados pelo Pai celestial. Somos filhos de Deus. Somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo. Recebemos o espírito de adoção, baseados no qual podemos clamar Aba, Pai. Nada pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus: Rm 8.28-39.


Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pela graça sois salvos, mediante a fé - A fé na obra consumada de Cristo


Pr Luciano R. Peterlevitz – Missão Batista Vida Nova, 27.11.2011


Efésios 2.8-9: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.



Introdução

Ef 2.1-10 descreve a trajetória de pessoas que estavam condenadas à morte, mas encontraram a vida eterna em Jesus.

Nossa situação sem Cristo: v.1-3. Corresponde a Rm 1.18-3.20. Estávamos mortos em nossos pecados e delitos; andávamos segundo o curso mundo (escravos de um sistema); andávamos segundo o príncipe da potestade do ar (escravos de Satanás); andávamos segundo nossa carne (escravos de nós mesmos); éramos por natureza filhos da ira.

A intervenção de Deus em nossa situação: v.4-10. “Mas Deus, que é rico em misericórdia” (v.4). Do sepulcro, fomos elevados aos lugares celestiais juntamente com Cristo. Deus manifestou sua “misericórdia”, seu “grande amor para conosco” (v.4), “a suprema riqueza de sua graça”, a “bondade para conosco” (v.7).

Então surge a declaração do v.8: “Pela graça sois salvos, mediante a fé”. Essa declaração pode mudar o rumo de sua vida.



Pela graça

A graça é o favor imerecido. Isso obviamente contradiz o censo comum.

Desde pequenos, aprendemos que, para alcançar nossos objetivos, precisamos fazer por merecer. Somos avaliados o tempo todo: pelos pais, pelo chefe, pelo pastor, pela professora... Por exemplo: uma criança merece o presente de natal se obedece ao papai e à mamãe.

O problema é quando as categorias de mérito e demérito são aplicadas à salvação. Veja. A Bíblia diz que pecadores podem ir ao céu e que religiosos e bonzinhos podem ir ao inferno. Isso contraria o senso comum, que diz que pecadores merecem o inferno e que religiosos e bonzinhos merecem o céu. O censo comum constrói suas afirmações por critérios de méritos e deméritos fundamentados naquilo que o ser humano faz ou deixa de fazer. Mas a graça inverte esses critérios. Na graça, aquele que não merece, recebe imerecidamente o dom gratuito, sem fazer por merecer.

Alguém diria que a graça é injusta. De modo algum. Veja Rm 3.21-26. Deus disse que o salário do pecado é a morte, e Ele mesmo pagou esse salário para nos salvar, através da morte de Jesus. Então, Aquele que oferece gratuitamente a salvação, já pagou o preço que Ele mesmo estipulara à salvação. Por isso, Deus é justo e justificador daquele que crê em Jesus.

A morte de Jesus na cruz é a maior prova do amor de Deus para conosco. Mas a morte de Jesus também é a maior prova de sua justiça. Deus abomina o pecado. Pois na cruz manifesta-se o amor de Deus, mas também a sua ira. Na cruz há um brado de morte.

Na verdade, Deus é mais rigoroso do que o senso comum. Porque, segundo as Escrituras, Deus não hesita em mandar para o inferno tanto o pecador quanto o moralista/religioso que não confiam na suficiência da obra de Cristo. Deus é rigoroso, porque exige um único e caro pagamento: a morte. Isso Jesus já resolveu por nós.

Há ainda outro ponto, que também demonstra que Deus é mais rigoroso do que senso comum imagina. Porque o que Ele exige para alguém estar em Sua presença não é nada mais do que a perfeição. Essa perfeição, aliás, após a Queda da humanidade (Gn 3) só existe Nele mesmo. Então o Deus justo e justificador coloca sobre nós a perfeita justiça de Cristo, permitindo que tenhamos acesso a Ele. Essa é a justiça mencionada no livro de Romanos. De fato a justiça de Deus se revela no evangelho (Rm 1.17).

Mas, por outro lado, ser salvo é mais fácil do que a gente imagina. Mas como? Deus exige a perfeição Dele mesmo para estarmos diante Dele. Então, o dom gratuito de Deus é fácil de receber? A Bíblia responde: basta crer! A graça só é compreendida pela fé. “Pela graça sois salvos, mediante a fé”.



Mediante a fé

A incredulidade é o pecado capital. De acordo com o Evangelho de João, pecado é não crer em Jesus: Jo 16.8-9. Nesse sentido, pecado não somente significa transgredir a lei, mas também transgredir a graça.

Mas, o que significa crer em Jesus? A salvação “não vem de vós; é dom de Deus”. A fé não é fundamento da nossa salvação. A graça de Deus o é. “Sois salvos pela graça”, diz o texto. O perigo então é tornar a fé como mérito para a salvação. Assim a salvação seria a recompensa da nossa fé.

Veja, por exemplo, a frase: “Aceite Jesus”. A pergunta, “o que devo fazer para ser salvo?”, normalmente é seguida pela resposta “aceitar Jesus”. O problema, tanto da pergunta quanto da resposta, é a tendência de interpretar a salvação a ser conquista por algo que tenho de fazer, enquanto a fé em Jesus, de acordo com as Escrituras, implica muito mais num caráter passivo do que ativo. A Bíblia diz que os filhos de Deus são aqueles que recebem Jesus (Jo 1.12). Recebemos o dom gratuito, a obra consumada de Cristo, pela fé. A obra de Cristo já está pronta, consumada.

Aqui cabe uma boa definição de Francis Shaeffer: a fé é mão vazia, é o instrumento pelo qual recebemos o dom gratuito de Deus. Crer é confiar plenamente na suficiência da obra consumada de Cristo.

Então, Deus é mais bondoso do que a gente imagina. O senso comum diz: tudo o que tem muito valor, é difícil de ser conseguido. Afinal, as coisas boas não 'caem do céu'. Mas Deus olha para um ladrão arrependido, e diz: “Você está perdoado”. Por outro lado, como vimos, Deus é mais rigoroso do que a gente imagina. Ele olha para alguém que fez tudo certinho na vida, mas não creu em Jesus, e diz: “Você está condenado”. Veja Jo 3.16-18.

No final, muitos dirão: “mas se fosse só isso, então eu teria feito!”. Então Deus responderá: “mas você não deveria ter feito; deveria ter crido.”

Portanto, o simples ato de crer é mais difícil do que a tentativa de se salvar pelas obras. Pois crer significa despojar-se de si mesmo, dos seus méritos pessoais. Um dos nossos grandes problemas é que sempre queremos dar um jeitinho para tudo. Mas, ao que diz respeito à salvação, precisamos crer que Deus já resolveu tudo através da morte de Jesus.

*O bote que virou no Niágara com dois tripulantes. A graça é a corda tênue que seguramos pela fé, à qual podemos nos agarrar, e que nos leva ao porto seguro da presença de Deus.

“Pela graça sois salvos”. O verbo salvos, segundo John Stott, enfatiza as consequências permanentes de uma ação de Deus no passado, e pode ser traduzido da seguinte forma: “Sois pessoas que fostes salvas e que permaneceis salvas para sempre.” Alguém pode perguntar: como isso é possível? E a Bíblia responde: creia, simplesmente.



Conclusão

Um artista retratou o rosto de certo homem. O homem retrato disse: 'no futuro, quando olharem este quadro, as pessoas se lembrarão mais do artista do que de mim'. Assim, nós também somos feituras de Deus, criados em Cristo Jesus (Ef 2.10). Não receberemos um troféu. Nós somos o troféu. Somos a pintura da graça de Deus. Somos amostras daquilo que Deus pode fazer com alguém que simplesmente crê.


Aquela voz que disse “Lázaro, sai para fora” ecoou em nossos ouvidos. E saímos do sepulcro mortal para vivermos nos lugares celestiais juntamente com Cristo. Mas, para isso aconteça em sua vida, a única pergunta que o Senhor faz é: ‘você crê que eu posso tirar você do túmulo?’.