sexta-feira, 10 de junho de 2011

LEMBRAI-VOS DAS MARAVILHAS QUE O SENHOR FEZ


Discurso do Prof. Luciano R. Peterlevitz na solenidade de Colação de Grau, realizada em 19 de março de 2011 na Primeira Igreja Batista de Campinas.


Ilustríssimo Diretor Interino, Pr Marcílio Gomes Teixeira,

Ilustríssimo Coordenador Acadêmico, Pr Antonio Lazarini Neto,

Ilustríssimo Patrono, Pr Paulo Vicente Ferreira das Neves,

Estimados formandas e formandos,

Caros irmãos e irmãs,


Uma boa noite a todos. Peço licença para, neste momento, dirigir-me aos formandos.

Aceitei com grande alegria o convide para lhes dirigir a palavra nesta noite. O motivo é simples: considero que seja um reconhecimento de que aulas de hebraico talvez não foram tão tediantes como normalmente são! Agradeço ao convite.

Este é um dia de festa e regozijo. É um dia de gratidão a Deus pelo cuidado e provisão dispensados ao longo de todos esses anos de curso teológico. É um momento oportuno para unir nossas vozes à voz do salmista: “Lembrai-vos das maravilhas que ele tem feito” (Salmo 105.5). Mas também é um momento para afirmar que o término do curso teológico é apenas o primeiro passo na trilha da vontade de Deus. Ao encerrar este momento festivo, vocês retornarão para seus ministérios, para suas igrejas. Há uma longa jornada pela frente.

Assim, como unir a gratidão pelas bênçãos num passado recente com a expectativa de um futuro que agora se inicia? Todos vocês certamente aprenderam muito durante esses anos de seminário. Mas talvez vocês estejam se perguntado: e agora, o que fazer?

Para responder tais questões, convido-os a olhar para o salmo já mencionado, o salmo 105. Leiamos os primeiros seis versos desse salmo:

1 Rendei graças ao Senhor, invocai o seu nome,

fazei conhecidos, entre os povos, os seus feitos.

2 Cantai-lhe, cantai-lhe salmos;

narrai todas as suas maravilhas.

3 Gloriai-vos no seu santo nome;

alegre-se o coração dos que buscam o Senhor.

4 Buscai o Senhor e o seu poder;

buscai perpetuamente a sua presença.

5 Lembrai-vos das maravilhas que fez,

dos seus prodígios e dos juízos de seus lábios,

6 vós, descendentes de Abraão, seu servo,

vós, filhos de Jacó, seus escolhidos.

Acredito que os salmistas perfazem um modelo paradigmático para pastores, missionários, teólogos e pregadores. Aliás, o mais famoso dos salmistas foi Davi, de quem Deus diz: “Encontrei o meu servo Davi” (Salmo 89.20). Portanto, podemos olhar para os salmistas como modelos de ministros do Evangelho.

De todos os livros da Bíblia, certamente o livro dos Salmos é o mais conhecido. Pois o livro é uma das mais inspiradoras fontes de meditação e devoção do judaísmo e do cristianismo. Nos salmos ouvimos o eco de desespero de um sofredor, mas também ouvimos a certeza da vitória que vem do Senhor. Os salmistas dirigiam suas orações a Deus, sem o receio de expressarem dúvidas e angústias, mas eles também levantavam suas vozes para reconhecer os atos maravilhosos do Senhor. De fato, os Salmos são orações. Alguém já disse corretamente que, enquanto os sábios e profetas falavam de Deus, os salmistas normalmente falavam a Deus. Nos livros proféticos, Deus falava com o homem. Nos Salmos, o homem fala com Deus.

Para os salmistas, cada momento era momento de buscar ao Senhor, era momento de orar, era momento de clamar, era momento para adorar. É por isso que os hebreus chamaram o livro de Sefer Tehilim, “Livro dos Louvores”, ou simplesmente tehilim, “louvores”. Salmos são louvores. É curioso que todos os 150 salmos sejam chamados de ‘louvores’. Os salmos de gratidão, como esse 105, é um louvor. Mas as súplicas, escritas em momentos sombrios, também são louvores. O salmo 3, por exemplo, foi escrito por Davi quando fugia do seu filho Absalão. Um pai com o coração partido! Um pai tendo sua vida ameaçada por seu próprio filho. Haverá dor maior? Mas, mesmo o salmo 3 foi considerado um louvor a Deus! Assim, todos os salmos, desde o mais antigo (o 90, salmo de Moisés) até os mais recentes (da época de Esdras) são chamados de louvores.

Sim, caros formandos, cada momento é um momento para louvar ao Senhor. Hoje é um dia festivo. É uma data oportuna para louvar ao Senhor. Mas saibam: existem vales sombrios pelos quais vocês terão de passar. Pois existem muitos espinhos no caminho do ministério pastoral. Mas lembrem-se: cada momento é momento para louvar. Transforme cada situação em oportunidade para louvar a Deus, e o ministério será muito mais agradável!

Os salmos são orações. Os salmos são louvores. Mas os salmos também são teologia. Martinho Lutero afirmava que o Saltério é uma pequena Bíblia, pois contém tudo o que é afirmado no restante das Escrituras. De fato, encontramos todo o cerne da teologia bíblica nos salmos. O Saltério descreve a criação e celebra o Criador: “Os céus proclamam a glória de Deus, o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmo 19.1). Dos salmos, emana a teologia dos atribudos de Deus: “de eternidade em eternidade, tu és Deus”, diz o Salmo 90.2b. O Salmo 139 alude aos três atributos de Deus: sua onipresença, sua onisciência e sua onipotência. De fato, os salmos retratam perfeitamente a Pessoa de Deus, em especial o Deus que liberta os pobres e oprimidos: “O Senhor executa a justiça e defende todos os oprimidos” (Salmo 103.6). Os salmos aludem ao pecado: “Eu nasci em iniquidade”, dizia Davi (Salmo 51.5). Mas também celebram o perdão dos pecados: “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto”, alegra-se Davi, no salmo 32. Há salmos messiânicos: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Salmo 22.1). Os salmos referem-se à consumação final do Reino de Deus, quando a paz e a justiça finalmente serão implantadas: “O Senhor reinará para sempre”, profetiza o Salmo 146.10.

De fato, os salmos constituem-se um manual de teologia. Mas, é bom que se frise: Salmos não é um manual de conceitos teológicos. O livro é um manual de orações. O livro nos inspira a confiar em Deus em todos os momentos. O Saltério nos obriga a entendermos a relevância dos atributos de Deus em nosso cotidiano. Até porque não existe teologia desassociada de prática pastoral. De fato, os salmistas são modelos apropriados de teólogos!

Portanto, os salmistas falavam de Deus falando a Deus. Anunciam Deus e os feitos de Deus, louvando ao Deus dos feitos! Não ousavam pregar sem antes louvar. Há de se notar, ainda, que os Salmos surgiram no contexto cúltico do antigo Israel. Os salmos eram cânticos! Eram poesia recitada por aqueles que peregrinavam a um santuário; os salmos eram entoados em momentos festivos de adoração, ou mesmo em momentos de ameaça nacional. Os salmos eram recitados numa adoração comunitária. Portanto, os teólogos dos salmos estão inseridos numa comunidade adoradora, e eles mesmos conduzem e lideram essa comunidade adoradora.

Para entendermos um pouco mais o surgimento dos Salmos no contexto da adoração, e como isso se aplica à dinâmica pastoral, precisamos pensar em alguns verbos hebraicos (olha o hebraico de novo!) fundamentais para o entendimento da literatura dos Salmos. Para isso, voltemos ao Salmo 105.1-6. Focalizamos o verso 5: “Lembrai-vos das maravilhas que ele tem feito, dos seus prodígios e dos juízos que proferiu.”

Chamo-lhes a atenção para o verbo zakar, que tem um significado bastante rico na Bíblia Hebraica: relembrar, recordar, mencionar, recitar, proclamar, comemorar. Ele aparece no verso 5: “Lembrem-se das maravilhas que ele fez”. Mas, porque se lembrar das obras que Deus fez no passado? Ora, a memória é uma forma de reviver o passado para se viver no presente. A maioria dos Salmos celebra os atos salvíficos de Deus na história passada de Israel e, ao mesmo tempo, renova as esperanças no presente: Deus intervirá de igual modo no presente, na vida dos adoradores. Por isso, eis uma expressão muito comum nos Salmos: “Vinde, contemplai as obras do Senhor” (Sl 46.8, cf. 48.9; 66.5; 69.32-33; 90.17; 98.3; 107.42). A obra do Senhor no passado continua no presente, na vida daquele que canta! Os Salmos devem ser lidos nessa perspectiva.

Assim, é notável que a maioria das súplicas termine com uma expressão de louvor a Deus. Por exemplo, Davi, no salmo 7, quando afrontado pelos inimigos, buscava o Senhor, dizendo: “O Senhor é o meu escuto” (verso 10), e no final da súplica afirmava: “Eu louvarei o Senhor...cantarei louvores ao nome do Senhor, o Altíssimo” (verso 17). No salmo 5, Davi gemia de dor: “atende aos meus gemidos”, diz ele no verso 1. Mas no final afirma: “Mas alegrem-se todos os que confiam em ti! Regozijem-se para sempre, porque tu os defendes!” (verso 11). Portanto, para o suplicante, Deus já atendeu o seu clamor e já interveio na situação dele, muito antes dele sair da situação que lhe ameaça.

Embora no momento da súplica o fiel enfrente angústia e medo, ele tem a certeza de que sua oração será atendida, por isso louva ao Senhor, agradecendo-O pelo livramento que certamente virá. Sobre isso, Claus Westermann afirma: “Nenhum milagre foi feito durante a oração do salmista. Mas deu-se outra coisa: Deus ouviu, Deus se inclinou, Deus teve compaixão. O elemento decisivo se realizou. O que ainda é esperado, a mudança da situação dolorosa, deve realizar-se.”

O verbo zakar também deve ser entendido nessa perspectiva. O lembrar das obras de Deus no passado significa atualizar a ação de Deus no presente. Isso é muito evidente nos Salmos, em especial no salmo 105. Aliás, é imprescindível lermos esse salmo junto com o salmo 104. Estes dois salmos, juntos, atualizam a ação de Deus na vida do salmista e de sua comunidade cúltica.

O salmo 104 celebra o Deus Criador. Os versos 1-4 afirmam que Deus criou os céus: “...estendes os céus como uma cortina”. Nos versos 5-9, Deus criou a terra: “Lançaste os fundamentos da terra...”. Nos versos 10-18, lemos que Deus criou a vida na terra: “...a terra se farda do fruto das tuas obras”. Os versos 19-23 enfatizam a criação da lua e do sol, e os versos 24-30 aludem à criação do mar. Mas a ênfase do salmo 104 não é a criação em si, mas o Criador, em especial o sustendo do Criador às suas criaturas. É por isso que o verso 27 afirma: “Todos esperam de ti que lhes dê o sustento a seu tempo”, e, no verso 30, o fôlego de Deus mantém a vida sobre a terra. Louva-se o Criador como sustentador da vida!

E o Salmo 105? O Salmo 105 é uma continuação do Salmo 104. À semelhança do Pentateuco, esses salmos, juntos, relacionam a criação à história da salvação. Os versos 7-25 afirmam que Deus fez uma aliança com os patriarcas, dizendo, no verso 7: “Ele se lembra para sempre da sua aliança, da palavra que ordenou para mil gerações” (olhem o verbo ‘lembrar’!). Os versos 26-38 descrevem a libertação do Egito. E, nos versos 39-41, lê-se que Deus cuidou de Israel no deserto: “Partiu a rocha, e dela brotaram águas, que correram como um rio pelos lugares áridos”, diz o verso 41. Entretanto, a surpresa desse salmo está no final. O verso 42 arremessa-nos para o verso 8: “Por que se lembrou da sua santa Palavra e de Abraão, seu servo.”. Mas a beleza do salmo está no finalzinho do ver 45: “Aleluia”. Aleluia: louvai ao Senhor. Sim, o salmista convida a comunidade cúltica para louvar ao Senhor, porque Deus, que é o Deus Criador, que é o Deus Libertador, que interveio no passado de Israel, certamente intervirá na vida daqueles que O louvam!

Criação (salmo 104) e redenção (salmo 105). Esses temas relacionam-se. Em Isaías 40 – 55 esses temas também estão magistralmente correlacionados. É que estes dois temas – criação e redenção – eram recitados no antigo Israel. Na récita, a criação é re-criada, e a redenção sempre renovada. Por isso a páscoa era um memorial: Este dia vos será por memorial (Êxodo 12.14). O Deus Libertador sempre intervirá quando um cativeiro ameaçar o seu povo. Uma nova páscoa surge a cada dia. Uma nova criação, todas as manhãs.

O modo como os salmos atualizam a ação de Deus na vida daquele que clama é claramente observado na morte de Jesus. Na cruz, o Senhor Jesus louvou ao Senhor, citando o Salmo 22. O Evangelho de Mateus Mt 27.46 cita apenas o primeiro verso do salmo 22. Mas os judeus costumavam recitar os salmos inteiros. E, como afirmam bons especialistas, Jesus citou todo o salmo 22. Pois este salmo fala de esperança: “Os humildes comerão e ficarão satisfeitos; e os que o buscam louvarão o Senhor. Que o vosso coração viva eternamente!”, diz o verso 26. A intervenção de Deus na vida de Davi foi renovada na vida de Jesus!

Então, de acordo com os Salmos, louvar na comunidade é atualizar a ação de Deus em nossa história presente. É possível exercitar uma leitura desta perspectiva a partir do salmo 105, em companhia com o salmo 104.

Observando ainda o salmo 105, identificamos outros verbos, que fazem companhia ao verbo zakar. Refiro-me ao verbo do verso 1, “tornar conhecido” (yada’), no sentido de “divulgar”: Rendei graças ao Senhor, invocai o seu nome, fazei conhecidos, entre os povos. No verso 2 lê-se os verbos “cantar” e “narrar”: Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; narrai todas as suas maravilhas. Em outros salmos, há um outro verbo muito importante, similar a esses do salmo 105.1-2. Trata-se do verbo safar, “proclamar”, “contar”:

Salmo 73.28:

28 Quanto a mim, bom é estar junto a Deus;

no Senhor Deus ponho o meu refúgio,

para proclamar (safar) todos os seus feitos.

Salmo 78.3-4:

3 O que ouvimos e aprendemos,

o que nos contaram (safar) nossos pais,

4 não o encobriremos a seus filhos;

contaremos (safar)à vindoura geração

os louvores do Senhor, e o seu poder,

e as maravilhas que fez.

Pode-se afirmar, portanto, que os salmos dialogam memória e anúncio. Os salmistas são anunciadores dos atos salvíficos do Senhor. Quando pregavam, quando recitavam uma poesia, eles atualizavam a ação de Deus na vida da comunidade de Israel. E eles mesmos eram parte integrante dessa comunidade adoradora.

Nos salmos, pregar é adorar; pregar é orar; pregar é louvar. O anúncio brota de um coração ditoso pela intervenção de Deus na própria história pessoal.

Pastores, missionários e missionárias: vocês são os salmistas de hoje. Deus fez grandes obras no passado. Vocês anunciarão essas obras, e Deus fará grandes obras através da vida de vocês. A proclamação, o anúncio, a pregação nada mais é do que fruto de um coração adorador. O pastor Isaltino Gomes diz acertadamente, em um dos seus livros: “A teologia é vida e transmite vida”. Outro teológo também afirmou: “o Deus do Antigo Testamento é o Deus da experiência, não o Deus da especulação.” E, bem disse Helmuth Theilicke: “o pensamento teológico só pode respirar em uma atmosfera de diálogo com Deus”. Eu diria que o cerne do pensamento teológico dos Salmos respira uma atmosfera de diálogo com Deus e com os oprimidos/sofredores. Os salmos são como brotos que surgem num cenário pós-queimada. São flores de esperança surgidas em meio aos arbustos secos da perseguição e da angústia. Expressam o louvor de um suplicante no meio de um temporal de sofrimentos e perseguições.

Estimados formandos, vão e sejam os salmistas do nosso mundo contemporâneo. Antes de pregarem sobre Deus, preguem o Deus que operou maravilhas na vida de vocês. Antes de pregarem sobre a criação, mostrem-se como novas criaturas. Antes de pregarem sobre salvação, anunciem os frutos da salvação presentes na vida de vocês. Antes de pregarem sobre oração, preguem a oração de vocês. Antes de pregarem sobre o perdão dos pecados, desafiem as pessoas a olharem a maravilha do perdão de Deus em sua vida. Antes de pregarem sobre adoração, preguem a vida de vocês como modelo de adoradores. Antes de pregarem sobre confiança, que vocês digam como o salmista: “Senhor, em ti confio” (Salmo 71.1). Antes de pregarem sobre a presença de Deus, preguem essa oração pessoal: “Todavia estou sempre contigo; tu me seguras com a mão direita” (Salmo 73.23).

E assim, vocês verão que não são dos fortes a vitória, nem dos que correm melhor, mas dos fiéis e sinceros. Então vocês experimentarão que “os que esperam no Senhor renovarão suas forças; subirão com asas como águia; correrão e não se cansarão; andarão e não se fadigarão” (Isaías 40.31).

Termino expressando o desejo do meu coração para vida de vocês: “aquele que começou a boa obra em vós irá aperfeicoá-la até o dia de Cristo Jesus”. Amém.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Teologia Libertadora


Se a situação histórica de dependência e dominação de dois terços da humanidade, com seus 30 milhões anuais de mortos de fome e desnutrição, não se converte no ponto de partida de qualquer teologia cristã hoje, mesmo nos países ricos e dominadores, a teologia cristã não poderá situar e concretizar historicamente seus temas fundamentais.

Hugo Assmann, Teologia desde la práxis de la liberacion – Ensayo teológico desde la América dependiente, 2ª edição, Salamanca, Sígueme, 1976, p.40.

domingo, 5 de junho de 2011

IGREJA: PLENITUDE QUE ENCHE TUDO EM TODAS AS COISAS


Luciano R. Peterlevitz

Palavra de Deus! Essa Palavra só pode advir do Espírito. Refiro-me a Efésios 1.23. Nesse texto lemos que a Igreja é o Corpo de Cristo, “a plenitude daquele que preenche tudo em todas as coisas” (Efésios 1.23). Essa é uma das mais surpreendentes declarações do Novo Testamento sobre a identidade da Igreja. Diga-se de passagem, a epístola de Paulo aos Efésios é considerada um verdadeiro tratado eclesiológico, pois descreve com muita propriedade o caráter da Igreja de Cristo. E, diga-se também que a declaração de 1.23 precisa ser compreendida à luz do contexto da mencionada carta.


Em Ef 1.3-14, lê-se um belo hino, que descreve a salvação efetivada por Deus através de Cristo Jesus. Já temos sido abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais, já estamos numa esfera celestial em Cristo. Fomos escolhidos antes da fundação do mundo; fomos adotados por meio de Jesus; recebemos o perdão dos nossos pecados, segundo a riqueza da graça de Deus. Não somente nós, mas todo Universo será finalmente redimido por Jesus, pois Nele serão convergidas “todas as coisas, tanto as que estão no céu como as que estão na terra” (1.10; veja 4.10 e Romanos 8.21). Em Jesus fomos feitos herança e recebemos a herança eterna, e fomos chamados para sermos para o louvor da sua glória. Ouvimos a palavra da verdade, cremos em Jesus, e fomos selados com o Espírito Santo da promessa, que é penhor da nossa herança; ou seja, a presença atual do Espírito em nós é a garantia de que um dia gozaremos plenamente da nossa herança, embora no presente já desfrutemos das “primícias do Espírito”.


A partir do v.15, lemos uma oração de Paulo, que se estende até o v.23. Nessa oração, o apóstolo ressalta a importância dos crentes conheceram seu chamado (v.18), e conscientiza-os sobre a suprema grandeza do poder de Deus em nós, pois, o mesmo poder que atuou em Jesus, ressuscitando-o dentre os mortos, também agora atua nos crentes (1.19-20). Nós, cristãos, já fomos ressuscitados espiritualmente. Esta declaração é desenvolvida em 2.1-1: estávamos mortos em nossos pecados e delitos; éramos filhos da ira; mas Deus, que é rico em misericórdia, e pelo seu imenso amor, nos deu vida juntamente com Cristo, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; assim, somos salvos pela graça, mediante a fé; e tal salvação não vem de nós mesmos, é um dom de Deus; não vem das obras. E, no v.10, há uma declaração fantástica: somos a nova criação de Deus, criados para as boas obras, “previamente preparadas por Deus para que andássemos nelas”. Não somos salvos pelas boas obras. Mas somos salvos para as boas obras. Quem negligencia esta declaração, dificilmente entenderá a epístola aos Efésios, terá uma compreensão equivoca de Igreja, e, obviamente, não entenderá a declaração de Paulo em 1.23: a Igreja é a plenitude de Cristo que preenche tudo em todas as coisas.


Que relação há entre 1.23 e 2.10? O que tem haver a plenitude de Cristo com a nova criação?


Antes de responder, detenhamo-nos um pouco mais em outras passagens de Efésios, especificamente em 2.11-22 + 3.1-21. Porque, se em 1.3-14 e 2.1-9 o texto bíblico descreve nossa nova relação com Deus, a partir de 2.11 ele descreve a nova relação com o próximo. Em 2.11-22, Paulo afirma que judeus e gentios, dois setores raciais bastante distintos, agora foram irmanados pelo sangue de Cristo. A obra de Jesus derrubou a parece da separação entre judeus e gentios, “pois ele é a nossa paz” (v.14). De ambos os povos fez um só povo. A cruz reconcilia o homem com Deus, mas também reconcilia os homens entre si. Jesus traz paz à terra entre os homens de boa vontade! Em 3.1-13, o texto continua o assunto de 2.11-22. O ‘mistério’ oculto em gerações passadas, agora foi revelado em Jesus. Que mistério? A união entre judeus e gentios num mesmo corpo. Quem faz essa obra? O Deus “que tudo criou” (3.9). Essa é a nova criação de Deus: a seres humanos convivendo pacificamente entre si, num mesmo Corpo. E assim, somos desafiados a entender o amor de Cristo em todas as suas dimensões (3.17-18), para que sejamos preenchidos “até a plenitude de Deus” (3.19). Portanto, a obra de Cristo diz respeito à nova criação, como uma re-criação de pessoas e como re-criação de espaços nos quais essas pessoas vivem. Na medida em que essa nova humanidade encarna Cristo, ela vai sendo preenchida com a plenitude de Deus. E, na medida em que essa nova humanidade é preenchida pela plenitude de Deus, ela vai preenchendo tudo e todas as coisas.


Em Ef 1.23, o texto refere-se à plenitude da natureza. Em 2.10, refere-se à nova criação. A Igreja representa um mundo novo. Ela é nova criação em Cristo. A Igreja enche todo o mundo caído. Ela é a plenitude de Cristo. Os cristão são a nova humanidade representante de um mundo re-criado, um mundo novo. A Igreja é a plenitude de Cristo, que preenche tudo em todas as coisas, na medida em que, sob a autoridade de Cristo, a Cabeça, e impulsionada pela obra de Cristo nela mesma, participa da regeneração integral do Universo.


Concluindo...

Se mundo vai de mal a pior, se as crianças ainda continuam sendo assassinadas, se o pobre ainda tem fome, se a violência ainda impera, se o mundo parece não ter solução, se a natureza continua sendo depredada...é porque a Igreja não tem sido Corpo de Cristo, é porque a Igreja não tem sido a plenitude que preenche tudo em todas as coisas. Antes de ser Corpo, lamentavelmente a igreja evangélica é um gueto religioso meramente preocupado na manutenção de suas estruturas institucionais. Mas, eu acredito. Eu acredito que ainda seremos efetivamente o Corpo de Cristo nessa terra.

Aceitar Jesus


Por Carlos David Franciscon

O que significa aceitar a Jesus?

A forma como esta expressão vem sendo utilizada nos dias atuais coloca Jesus como mais uma dentre as centenas de outras opções existentes nessa sociedade pós-moderna, tais como, aceitar a Buda, aceitar as Teorias de Allan Kardec, aceitar a Hare Krishna. “Eu aceito Jesus” virou sinônimo de “Agora eu faço parte da cultura Gospel”.

Partindo de um ponto de vista cultural, aceitar a Jesus hoje é apenas tornar-se parte de um universo de pessoas chamadas evangélicas, com sua própria forma de falar, seu próprio jeito de vestir, sua própria bagagem cultural, que se fecham em seus templos de tijolos, convidando mais e mais pessoas para fazerem parte dessa sua cultura.

Mas então pra que aceitar Jesus?

Se aceitar Jesus significa mudar de cultura apenas, não existe diferença técnica entre ser evangélico e ser budista, é o mesmo que trocar de partido político, eu era pmdebista agora sou petista. Se aceitar a Jesus significa mudança de comportamento, muitos não precisariam dele, Seguir aos ensinamentos de Ghandi seriam suficientes para se criar uma boa índole. Se aceitar a Jesus significa ter que ouvir música evangélica o dia todo para mostrar ao mundo sua nova cultura, eu prefiro ouvir música pop.

Enfim se aceitar a Jesus se resume a qualquer uma dessas opções ou todas elas, esse Jesus não é o mesmo das escrituras sagradas. Se Jesus não passa de um símbolo cultural, não pode ser o caminho a verdade e a vida que lemos no evangelho de João. Se Jesus é apenas um guia espiritual ele não pode ser considerado como fonte de água viva. Se Jesus é o garoto propaganda de um produto chamado vida eterna, ele não pode ser a própria vida.

Aceitar a Jesus significa muito mais do que se tornar evangélico, aceitar Jesus não é uma mudança de vida, mas um novo nascimento, não significa isolar-se do mundo, mas influencia-lo positivamente.

Tornar-se Cristão é ser reconhecido como tal, sem necessidade de estar fantasiado de crente, pois não me torno maior quando sou cristão, me torno consciente de como sou fraco e merecedor de castigo por estar separado de Deus.

Não me salvo da morte como prêmio por aceitar a Jesus, Ele me salva da morte por eu reconhecer que sou merecedor dela, agora pergunto: Porque o Jesus evangélico é tão diferente do Jesus bíblico?

Quando a igreja se torna comércio, Jesus se torna produto, dessa forma responder positivamente a pergunta tratada acima significa comprar esse produto. Nossas igrejas assumiram a visão empresarial e se tornaram competidoras umas com as outras em busca de mais clientes, dessa forma fica fácil aceitar Jesus, já que não se dá a devida profundidade ao assunto, essa frase se torna um mero convite semelhante àqueles clubes que mandam um comunicado pelo correio e prometem uma bicicleta grátis ao associado.

Aceite a Jesus e ganhe inteiramente grátis uma passagem para o paraíso.

É necessário que cada um assuma o papel de discípulo de Jesus e mostre ao mundo que Jesus é a diferença, Jesus é a resposta ao maior problema da humanidade, o afastamento de Deus. Dessa forma, evangelizar será muito mais do que implorar para que pessoa aceite a Jesus, será o prazeroso processo de mostrar o amor de Deus as pessoas, cultivando amizades, sendo diferente e não isolado do mundo, de ser uma pessoa que reflita o caráter do Jesus bíblico.

Não pergunte a alguém se ele aceita a Jesus, mas faça com que ele mesmo sinta o desejo de conhece-lo.

A Utilidade da “inútil” Teologia de Dawkins


Por Carlos David Franciscon

Recentemente ao ler um artigo de Richard Dawkins, intitulado, “A inutilidade da Teologia”, conclui algo que vinha pensando há certo tempo; o quanto a Teologia moderna tem sido inútil da tarefa de mostrar sua utilidade ao mundo.

Dawkins inicia seu artigo criticando um editorial do Jornal britânico Independent, que pedia a reconciliação entre ciência e teologia, levando em consideração todos os feitos ditos puramente científicos, e a ausência de tais feitos por parte da Teologia.

Concordo com o Teólogo Francis Schaeffer em seu livro “A morte da razão”, onde ele defende a idéia de que a ciência moderna está morrendo justamente por estar abrindo mão da sua origem divinamente inspirada e transformando-se cada vez mais em estatística e empirismo puro. Interessante o fato que boa parte das criações e avanços citados por Dawkins como feitos da ciência, surgiram de pesquisadores cristãos, como Galileu, Roger Bacon, Isaac Newton, Michael Faraday, dentre outros...

Não culpo Dawkins por pensar como pensa, culpo a ineficiência da Teologia moderna em transmitir conhecimentos palpáveis ao mundo, sem afirmações mágicas, e abracadabras.

Conhecendo algumas obras de Dawkins, afirmo que boa parte dos seus ataques à teologia são fruto de sua falta de conhecimento nessa área, ou conhecimento fragmentado de parte dela, sendo que boa parte desse conhecimento teológico parece ter vindo das idéias de alguns teólogos de fundamentalistas, que insistem em atribuir à bíblia características que ela não tem tais como sistemática científica ou arqueológica por exemplo.

Foi esse tipo de fundamentalismo que quase matou Galileu, pois suas descobertas não condiziam com a exatidão científica que acreditam possuir a Bíblia, sendo a mais provocante delas afirmar que o Sol não gira em torno da terra como dizia a tradição católica da época.

Sem dúvida a Bíblia Sagrada hoje é uma das maiores fontes de discussões entre vertentes religiosas e científicas, alguns cientistas modernos tentam incessantemente mostrar a inutilidade da religião, como esse artigo de Dawkins, outros tentando provar que fatos descritos não condizem com a realidade científica, alguns fundamentalistas religiosos por outro lado insistem em afirmar a ciência dos fatos bíblicos como se a exatidão científica fosse o objetivo das sagradas escrituras.

È notável que ciência tem sua importância no entendimento humano das coisas que o cercam, aliás, a verdadeira ciência primitiva surgiu do pressuposto de que Deus criou o homem inteligente, portanto capaz de estudar o mundo que o cerca.

O próprio Galileu tentou expressar a veracidade bíblica dizendo ”Deus escreveu dois livros A Bíblia e o livro do Universo”, os dois são verdadeiros, mas em linguagens diferentes. È claro que Deus não escreveu literalmente um livro do Universo, mas isso mostra que o Universo não está confinado em poucas páginas.

Gostaria de propor um exercício para mostrar a futilidade dessa briga de razão, fazendo uma comparação do Universo com um aparelho eletrodoméstico.

Imagine que o Universo criado por Deus é como um televisor, e a Bíblia como o manual de usuário desse televisor. É possível entender o funcionamento do televisor de forma técnica apenas lendo o manual de usuário? Certamente pouco.

Mas o manual de usuário ensina como lidar com o televisor, possui dicas de conservação e limpeza, dentre outras facilidades. Por outro lado imagine que a ciência moderna é como o manual técnico do televisor. È possível conhecer as facilidades do televisor, dicas de uso entre outras, apenas pelo manual técnico? Não.

Mas o manual técnico ensina os princípios de funcionamento, o funcionamento do CRT “tubo” capaz de gerar pontos coloridos que nosso cérebro entende como imagens, manutenção dentre outros detalhes técnicos adicionais.

Tanto o manual de usuário como o manual técnico, falam sobre o mesmo televisor, porém cada um sobre um prisma diferente, assim como a Teologia e a Ciência. A Teologia não pode negar a Ciência, mas não precisa explicá-la, assim como a verdadeira Ciência não pode negar a Deus apesar de ser incapaz de explicá-lo.

Se olhássemos para os manuais do televisor com os mesmos olhos céticos dos fundamentalistas religiosos e dos cientistas ateus, também acharíamos divergências entre o manual de usuário e o manual técnico do televisor, afirmando que um ou outro é mentiroso, observe um exemplo, de possível ponto de crise:

O manual de usuário explica que quando se liga o televisor aparece um conjunto de imagens, já o manual técnico diz que ao ser ligado o Televisor produz um feixe de elétrons que ilumina pequenos pontos no fundo do tubo, Será que algum dos dois manuais está mentindo ou estão dizendo a mesma coisa em linguagem diferente?

Essa deve ser a forma de encarar fé e ciência, não como combatentes, mas como parte de um processo de construção de conhecimentos desse misterioso e maravilhoso universo que nos cerca.

Concordo que atualmente a Teologia pouco tem feito na sociedade, porém questionar a existência da Teologia como campo do conhecimento, como faz Dawkins na frase final de seu artigo, é no mínimo tão ingênuo como um simples cidadão do campo sem formação nem conhecimento político questionar a utilidade da própria política, já que na sua visão popular todo político é corrupto e não produz nada de bom.

Se a Teologia produziu algo de útil? Analise a história dos grandes cientistas do passado e descubra o papel inspirativo da Teologia em suas vidas.

Respeito a formação de Dawkins dentro da sua área, principalmente biológica, mas para um intelectual desse porte, uma crítica à determinada área do conhecimento deveria no mínimo vir acompanhada de elementos mais completos e fundamentados e não apenas de trivialidades que até mesmo os teólogos concordam.